No dia dois de novembro são lembrados aqueles que já nos deixaram com visitas aos cemitérios e outras homenagens. Cemitério é uma palavra originada do latim e também do grego que significa “por a jazer” ou “fazer deitar” sendo utilizada desde o tempo dos primeiros cristãos.
Quantos cemitérios públicos ou particulares foram construídos no perímetro urbano, e quantos no Município de Casa Branca desde as suas origens?
No inicio da freguesia as pessoas eram sepultadas ao redor ou no interior da Igreja do Rosário, dependendo da importância das mesmas.
O primeiro cemitério só foi construído em 1837 no Largo do Rosário, no espaço atualmente ocupado pelo jardim e coreto da Praça Dr. Barreto.
Retratado na aquarela de Miguel Dutra em 1855, e descrito, pelo Visconde de Taunay, no livro “A Marcha das Forças” em 1865, mostra um cemitério com várias cruzes do lado de fora dos muros [possivelmente do período de 1814 a 1837] e “ao centro uma cruz com os símbolos do suplicio do Redentor” [provavelmente no mesmo local da atual cruz de metal em frente a Igreja do Rosário].

Em 1869 com o crescimento da vila foi inaugurado o segundo cemitério, no local da atual Escola Doutor Francisco Thomaz de Carvalho. No interior do mesmo foi construída a Capela de São Miguel, que permaneceu na praça mesmo depois da mudança do cemitério, sendo utilizada pelas irmãs, que trabalhavam na Santa Casa, para aulas de catecismo.
Interessante notar que no Brasil existem cemitérios com capelas dedicadas a São Miguel, ou que tem o nome do santo, por exemplo: Cemitério São Miguel e Almas em Porto Alegre e em Campinas [anexo ao Cemitério da Saudade e utilizado para sepultamento do clero e de congregações religiosas masculinas e femininas].
Sobre outros cemitérios existiu o do Piçarrão, mencionado por Lafayette de Toledo, e provavelmente construído nas terras do Padre Godoy para sepultar os moradores do núcleo de Cocais,
Na epidemia de bexiga [varíola] no final do século dezenove e inicio do vinte foi construído, perto do hospital de isolamento, um cemitério destinado as vitimas da doença. Era localizado na região da Vila Industrial e desapareceu com o tempo, já que todos foram sepultados em cova rasa, sem a construção de túmulos.
Existe também o cemitério do Asilo Colônia Cocais para sepultamento dos hansenianos que ali residiam, atualmente localizado entre o Assentamento e o Presídio, não sendo mais utilizado desde a década de 1970.
Também foram edificados os cemitérios dos distritos de Itobi e de Lagoa Branca, os dois em funcionamento.
São, portanto oito cemitérios: três públicos na cidade, um no distrito, um em Itobi, que hoje é Município, um no Cocais, um no Piçarrão e um na Vila Industrial. Três funcionam, um está desativado e quatro desapareceram, ou foram extintos, no decorrer do tempo
Em 1882 começa a construção do atual cemitério que foi entregue pela Câmara Municipal ao pároco Cônego Carlos Augusto Gonçalves Benjamin no dia 24 de outubro de 1884, portanto há 142 anos.
Por ser localizado perto da antiga estação ferroviária de Papagaios [ao lado dos armazéns da Rhor] quando morria alguém era comum se ouvir na cidade: “fulano foi para os papagaios”.

Personagens e vultos importantes da história de Casa Branca estão sepultados neste local, da mesma maneira que muitos escravos e pessoas anônimas que também contribuíram para o progresso de nossa cidade.
Vamos destacar, no entanto algumas capelas e túmulos de interesse arquitetônico, dos mais variados estilos, que são mencionados no site www.artefunerariabrasil.com.br.
A capela da família Peixoto, toda revestida em mosaico português, desperta a atenção pela variedade de modelos do azulejo e também pelo porte da construção.

Já a capela da família Horta tem estilo de construção neoclássico caracterizados pelo arco arredondado, frontão triangular e pilastras com nervuras.

A família Musa usou do estilo eclético em sua capela misturando elementos góticos e barrocos tendo ao alto a imagem da pranteadora representa a dor dia do final da vida humana.

Um dos túmulos, construído nos primeiros anos do século vinte em mármore de carrara, tem no topo uma urna funerária com a foto do menino Stefano, com moldura de coroa de flores também em mármore, que pode ser observada no detalhe.
A inscrição no túmulo é em italiano, representando a origem da família Bonetti, que veio da Itália para Casa Branca onde se estabeleceu no ramo da marmoraria.


Do mesmo estilo art déco com a coroa de flores, do ano de 1924, é o tumulo do Professor Paulo Bonetti, pertencente à mesma família de imigrantes italianos.

O tumulo com a estátua denominada “Alegoria da Saudade” também em mármore de carrara era produzida em série. Merece destaque a cruz e o valor artesanal da guirlanda de flores e das dobras da vestimenta do anjo.

O túmulo de Braulino de Carvalho, falecido em 1920, é de autoria do professor Theodoro Volponi, que além de professor e escultor, foi vereador, presidente da Câmara e prefeito de Casa Branca. Ele reúne nas esculturas o busto do falecido, a viúva e os filhos e a coluna partida representando o fim da vida. Como curiosidade: o menino na escultura do lado direito da foto seria o Senhor José Basilone Júnior. que serviu de modelo ao artista.

Um caso singular da arquitetura funerária brasileira, pode ser encontrado na modesta sepultura de José Cristiano, representados na beleza artesanal da cruz latina com o anjo da ressurreição fundidos em ferro.

Este jazigo do século vinte tem arquitetura simétrica, retilínea e despojada. Há um jogo sutil de cores entre o granito preto e a pedra picotada. A peça de mármore de carrara, colocada ao lado, representa todo o sentimento de tristeza desta pranteadora.

É obvio que visitando pessoalmente o cemitério vamos encontrar muitos exemplos de túmulos de alto valor artístico e arquitetônico, que precisam merecer das famílias proprietárias, melhor atenção no sentido da conservação e preservação dos mesmos. Em cidades como São João da Boa Vista, por exemplo, existe um roteiro histórico e arquitetônico para visita ao cemitério.
Bibliografia:
Casa Branca, A povoação dos Ilhéus - Amélia Franzolin Trevisan.
Dicionário Topográphico da Comarca de Casa Branca- Lafayette de Toledo
Uma Vez Casa Branca- Ganymédes José
Registros da História de Casa Branca – Ernane Cambiaghi
Jornal “Casa Branca” – Justino Gomes de Castro
Maria Elizia Borges-site: www.artefunerariabrasil.com.br
Imagens: Cemitério da Vila de Casa Branca- 1855 - aquarela de Miguel Dutra, fotografada por Hélio Nobre, Acervo do Museu Paulista da Universidade de São Paulo.
Fotografias: Luciano Bortoletto Junior
Diário de Casa Branca



