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Histórias da Nossa História

100 Anos da Novena e Festa de Nossa Senhora do Desterro

Luis Renato Thadeu Lima
Luis Renato Thadeu Lima · Pesquisador e memorialista
· 8 min de leitura
Procissão da festa de Nossa Senhora do Desterro em 1927

Procissão de 1927

Na comemoração do Centenário, é bom recordar que a devoção a Senhora do Desterro, em terras casa- branquenses, começou bem antes de 1926.

Há cento e trinta e seis anos,no dia 27 de abril de 1890, foi celebrada a primeira missa na Capela de Nossa Senhora do Desterro, construída pelo Coronel João Gonçalves dos Santos, no local então conhecido como Alto da Boa Vista.

Desenho da primeira Capela de Nossa Senhora do Desterro
Desenho da primeira Capela

O Coronel, que, em 1874, foi o primeiro presidente da Câmara Municipal de Ribeirão Preto, buscou refugio em nossa cidade devido a perseguições políticas. Aqui fez uma promessa a Nossa Senhora do Desterro, pedindo sua intercessão, para ficar livre dos problemas que o atormentavam. Atendido construiu a capela e mandou vir de Portugal, segundo tradição de família, a imagem de Nossa Senhora do Desterro.

Coronel João Gonçalves dos Santos
Antonia, esposa do Coronel João Gonçalves dos Santos
Coronel e sua esposa Antonia

Também por testemunho dos descendentes, e de jornais da época, desde 1890 já era realizada a Festa do Desterro, restrita à família e convidados, sendo o último registro da mesma em 1901.

No ano de 1926 o Coronel João Gonçalves dos Santos doou a capela, e a área de terras anexas, para a então Diocese de Ribeirão Preto, em documento assinado pelo mesmo e pelo Pároco Cônego Oscar Sampaio Peixoto.

Coronel João Gonçalves dos Santos e o Cônego Oscar Sampaio Peixoto
Coronel e Cônego Oscar
Interior da Capela do Desterro em 1926
Capela em 1926

A Festa de Nossa Senhora do Desterro foi reiniciada, com quermesse publica e novena, no período de 16 a 25 de julho de 1926, continuando, sem interrupção, nos últimos cem anos.

Cartaz da festa de Nossa Senhora do Desterro de 1926
Cartaz festa 1926

Em 17 de setembro de 1926 o Coronel João Gonçalves dos Santos faleceu e foi sepultado, conforme sua vontade, na capela.

Já em 1927 a festa passou a ser realizada em agosto, por ser menos frio que julho, com a procissão acontecendo no dia 15, Assunção de Maria, ou no domingo mais próximo.

Uma segunda procissão, em louvor a São Roque, sempre no dia 16 de Agosto durou até o final dos anos 1960 e inicio dos 1970.

Procissão da festa de Nossa Senhora do Desterro em 1927
Procissão de 1927

Dom Alberto José Gonçalves, primeiro bispo de Ribeirão Preto, em 1936 doou toda a área da capela para a Congregação dos Sagrados Estigmas de Nosso Senhor Jesus Cristo [estigmatinos], fundada em Verona-Itália por São Gaspar Bertoni.

Dom Alberto José Gonçalves, primeiro bispo de Ribeirão Preto
Dom Alberto

Em seis de março de 1936, Dom Alberto aprovou os estatutos da “Associação de Nossa Senhora do Desterro.” com o fim especifico de propagar a devoção a Nossa Senhora do Desterro e a construção de uma nova igreja

Mesmo sendo italiano, e recém chegado a Casa Branca, o padre Luiz arregaçou as mangas, e em dezenove de maio do mesmo ano, realizou a primeira reunião da associação, com posse da diretoria.

Destacamos na ata da primeira reunião:

“Depois com palavras cheias de enthusiasmo [Padre Luiz] deu conhecimento a todos que daquelle momento em diante não mais se deveria dizer “Capella”, mas sim “Santuário”, pois estava solenemente proclamado como Santuário de acordo com a auctoridade eclesiástica, contava assim daquelle momento em diante o nosso Estado com quatro Santuários, sendo o de Nossa Conceição Apparecida, o de Nossa Senhora da Penha [na Capital], o do Senhor Bom Jesus de Pirapora e o de Nossa Senhora do Desterro.”

O documento não deixa duvidas de que a Capela do Desterro está completando noventa anos de sua elevação a Santuário, sendo na época, o quarto do Estado e, com certeza, o menor do Brasil [apenas o espaço do altar atual]

Altar da Capela do Desterro em 1936
Capela em 1936

O padre Luiz foi o primeiro reitor do Santuário do Desterro, acumulando com o oficio de vigário [pároco] da Matriz.

Em trinta e um de julho de 1937 o jornal “A Razão” publicou a planta do novo Santuário, que depois foi modificada para o templo atual

Planta do Santuário publicada no jornal A Razão em 1937
Planta do Santuário – jornal “A RAZÂO” -31/07/1937

Iniciou-se simultaneamente a construção de um seminário, destinado exclusivamente para a formação de irmãos, contando com marcenaria, pomar, horta, alfaiataria, tipografia, emissora de rádio, entre outros. Caso o estudante abandonasse o seminário, sairia com uma profissão.

O “Conventinho do Desterro” foi inaugurado em 1943, e a comunidade era composta pelo Padre Mário Zuchetto [segundo reitor] e os Irmãos Roberto Giovanni e Benedito Felix e entre os seminaristas, o casa-branquense Oscar dos Santos, primeiro negro a professar os votos na Congregação Estigmatina.

Comunidade estigmatina do Desterro em 1943
Comunidade 1943
Seminário do Desterro em 1943
Seminário 1943

No mesmo ano o novo Santuário passou a ser utilizado, ainda inacabado, faltando reboque e pintura.

Santuário do Desterro ainda inacabado
Santuário do Desterro ainda inacabado, lembrança da festa de 1949
Santuário inacabado

A devoção a Nossa Senhora do Desterro foi aumentando graças à criação da revista “Ecos Estigmatinos” ,em 1945,editada e impressa na Tipografia do Desterro, e aos irmãos que percorriam os estados de São Paulo, Minas Gerais e Goiás divulgando e oferecendo assinaturas da revista, que circulou até 1963.

O grande número de jovens de outras cidades, que vinham estudar na Escola Normal, também fez com que a Novena e Festa ficassem bastante conhecidas.

Não podemos falar do Santuário e da Novena e Festa sem lembrar e destacar o acolhimento aos romeiros e visitantes realizado pelo Irmão Roberto Giovanni, hoje Venerável e em processo de Beatificação e Canonização, durante quarenta anos [1943 a 1984].

Cabeçalho da revista Ecos Estigmatinos
Ecos Estigmatinos
Irmão Roberto Giovanni e Padre Antônio Florentino
Irmão Roberto e Padre Antônio Florentino

Depois da revista “Ecos Estigmatinos” os Padres Augusto Casagrande [terceiro reitor] e Umberto Sesso [quarto reitor] buscaram outros meios de comunicação e viabilizaram, em dois de setembro de 1957, a compra de uma emissora de rádio, que foi instalada no Salão São José. No final da década de 1960 a emissora foi transferida para o prédio anexo ao Santuário de Nossa Senhora do Desterro.

No entanto a ZYR 204 – Rádio Difusora de Casa Branca, ondas médias, 1580 quilohertz, foi inaugurada quase um ano antes, em oito de dezembro de 1956, dirigida pelo radialista Vicente Sales, também proprietário da Sociedade Rádio Tambaú.

No ano de 1981, foi transferida ao grupo Natal Gale, com aumento da potência de 250 para 1000 watts, nova freqüência de 720 quilohertz, prefixo ZYK 575, e novos estúdios no número 12 da Rua Luiz Pizza.

Na década de 1990 a concessão passou para a Fundação Padre Donizetti, ligada a Diocese de São João da Boa Vista, e a emissora retornou para o antigo espaço, totalmente reformado, anexo ao Santuário do Desterro.

Atualmente as duas emissoras , que foram coirmãs no inicio, integram a Rede Difusora Padre Donizetti ocupando as freqüências: 103,1 FM em Casa Branca e 107,1 FM em Tambaú.

No final da década de 1950, também graças ao trabalho liderado pelos padres Casagrande e Umberto, foi inaugurado o novo seminário, e nos anos 1970 as novas instalações da gráfica, carpintaria e anexos, sob direção do padre Vicente Picarelli, que também criou o Colégio e Artesanato Nossa Senhora do Desterro para formação e educação de crianças da primeira a quarta serie.

Padre Augusto Casagrande
Padre Umberto Sesso
Padre Vicente Picarelli
Padres Casagrande, Umberto e Vicente
Seminário novo do Desterro
Seminário novo
Construção da gráfica nova do Desterro
Gráfica Nova

Nos anos 1960 a Festa do Desterro, segundo depoimento de Luiz Missura, era considerada a quinta maior festa religiosa do Estado de São Paulo.

Com dois grandes salões: os bares Coronel Gonçalves e o Fumaça [que ficava ao lado direito de quem entra no recinto], as barracas com doces, bonecas, carrinhos de madeira feitos na marcenaria do seminário, leitões vivos e tantas outras prendas, sorteadas nas famosas roletas.

Bar Fumaça, no recinto da festa do Desterro
Bar Fumaça
Padre Dalton Chaves
Padre Felisberto Campagner
Padres Dalton e Felisberto

No período 1965 a 1991 tivemos o quinto reitor Padre Dalton Chaves e o sexto Padre Felisberto Campagner, o que mais tempo permaneceu na reitoria.

Além do Irmão Roberto, lembramos também dos irmãos: Cristovam [tipografia e grupo de jovens]. Ferreira [marcenaria] Mário e Benjamin [horta], Lazinho [gado bovino e suíno], Mané [pomar], Zanchetta [formador e canto litúrgico], e os que se ordenaram padres: Narciso, Marson, Adriano, Primo e Esio Juncionl

Irmãos estigmatinos na década de 1960
Irmãos na década de 1960

A partir do alto, da esquerda para a direita: Manoel, Benedito Farias, José Placídio, Sebastião Marson, Luiz Missura, Antonio de Lima, Sebastião de Souza, Lazaro de Andrade (Lazinho), Mario Eugenio Budri, Cristovam Francisco Flores, Pedro Bianconi, Jasser Aparecido Dias, José Carlos Adriano, Osvaldo Parizotto, José Luiz Caldiron, José Ferreira, José Sobreiro, Francisco Fassa, Roberto Giovanni, Benedito Felix, Antonio de Souza, Onofre Burghieri, Gino, Geraldo Vitti (Santana).

Em 15 de maio de 1991, com a saída dos padres e irmãos estigmatinos, a diocese de São João da Boa Vista assumiu o Santuário e prédios anexos, e o reitor Padre José Mário Ribeiro promoveu a total reforma das instalações, transformadas no Centro Diocesano de Pastoral Dom Tomas Vaquero.

Há vinte e cinco anos, em 24 de outubro de 2001, foi criada e instalada a Paróquia Santuário Nossa Senhora do Desterro confiada ao casa-branquense Padre Carlos Eduardo Dobies.

Desde o inicio de 2021, outro casa-branquense, Padre Mário Adorno está à frente dos trabalhos pastorais do Santuário.

A Novena e Festa de Nossa Senhora do Desterro comemora seu centenário, juntamente com o centenário da morte de seu idealizador e benfeitor, e também os noventa anos da elevação a Santuário, da chegada do padre Luiz Maria Fernandes e dos estigmatinos a Casa Branca, setenta anos da Rádio Difusora e vinte e cinco anos da instalação da Paróquia.

Por tantos motivos demos graças a Deus!


Bibliografia: “Revista Ecos Estigmatinos”
“Jornal “Casa Branca” – Justino Gomes de Castro
“Revista Comemorativa 90 anos do Santuário”-Diácono Fernando Antonio de
Siqueira e outros – 2016

Imagens: Arquivo Cúria Provincial dos Estigmatinos
. Livro: “200 Anos Casa Branca” – Ezio José Meira Molinari

Revitalização das fotografias e do cartaz: Karoline Picollo, Leonardo Borghetti Marques Falarini Belotti.

Os artigos de opinião são de responsabilidade de seus autores e não representam, necessariamente, a posição do Diário de Casa Branca.

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