O assunto é motivo de alguma controvérsia: Casa Branca completa 212 anos?
Na verdade não temos no Brasil nenhum critério que determine o aniversário ou a idade dos municípios, daí São Paulo comemora sua fundação no dia em que os padres jesuítas inauguraram o colégio, São José do Rio Pardo na data que foi criada a capela e Casa Branca na da criação da freguesia.
Na verdade desde 1731 o Caminho de Goiás já era intensamente utilizado e habitado principalmente próximo aos rios, onde era necessário o serviço de balsas para atravessá-los, e os mascates percorriam a região até o rio Pardo e depois chegariam até ao Rio Grande. Num mapa de 1773 já aparece o nome Cazabranca.

Bem próximo a Casa Branca existia Piçarrão e Cocais, este propriedade de Bento Dias Garcia, que vendeu ao Padre Francisco de Godoy Coelho terras na região. Neste local o padre tentou lançar as bases de uma futura freguesia construindo uma capela dedicada a Santana e São Mateus.
Com a ajuda de Bento e do Padre Godoy os moradores do sertão pediram ao Bispo de São Paulo a criação de freguesias, e parecia óbvio que uma delas seria criada na capela existente.
No entanto o Bispo de São Paulo Dom Mateus de Abreu Pereira decidiu que a localização seria no lugar da Casa Branca.
A opinião do bispo, membro interino do Governo da Capitania de São Paulo, foi decisiva e a Mesa da Consciência (tribunal que aconselhava o Rei de Portugal em assuntos eclesiásticos) deu parecer favorável aos 9 de março de 1814, e no dia 15 do mesmo mês o príncipe regente Dom João VI assinou resolução criando as freguesias de Nossa Senhora das Dores da Casa Branca e do Senhor do Bom Jesus dos Batatais.
O Alvará, com valor de carta régia, criando a Freguesia de Nossa Senhora das Dores de Casa Branca foi emitido em 25 de outubro de 1814, data que é considerada como a da fundação da nossa cidade.

No inicio de 1815 chegaram a Casa Branca famílias portuguesas, vindas do Arquipélago dos Açores, para o povoamento da nova freguesia. Para eles foram construídas, de pau a pique e cobertas de sapé, vinte e quatro casas, e uma pequena capela, dedicada a Nossa Senhora das Dores
Estes dados são do trabalho de mestrado da Professora Amélia Franzolin Trevisan, apresentado em 1979, ao Departamento de História, da Faculdade de Filosofia Ciências e Letras, da Universidade de São Paulo, sendo o mais completo estudo das nossas origens do qual transcrevemos:
“Portanto Casa Branca teve fundação peculiar, toda própria, fugindo do esquema geral da capela, patrimônio e depois freguesia. A Freguesia foi criada por resolução e alvará régios, em local determinado unicamente por ser o centro da região, com vista à agricultura e povoamento; tanto assim que foram ali planejadas e construídas casas e capela para o Governo da Capitania alojar um grupo de imigrantes açorianos destinados à agricultura.
Formou-se assim, Casa Branca, a povoação dos ilhéus.”
Sobre a origem do nome Casa Branca conhecemos três versões:
A primeira seria o nome dado pelos tropeiros e carreiros para a casa caiada, que servia de rancho ou pouso.
A segunda que Casa Branca seria a modificação da expressão indígena haçá-bang-ca que significa caminho torcido, alusão a fuga da estrada real para enganar a fiscalização, já que em nosso território havia o encontro do Caminho de Goiás ou do Ouro com a estrada vinda região de Baependi, São João Del Rey, Lavras, passando por Cabo Verde e Caconde.
A terceira, apresentada por Ernane Cambiaghi, seria originaria de um quartel, também caiado de branco, construído no século dezoito para controlar a questão do ouro e incentivar o povoamento. Existe uma aquarela do mesmo, pintada por Miguel Dutra no ano de 1846, que integra o acervo do Museu Paulista da Universidade de São Paulo.

Sobre seu fundador José Nazaré de Azevedo, sem querer criar polemica, e tomando emprestadas as palavras do professor Geraldo Majella Furlani: “Absolutamente não me anima a índole de iconoclasta [destruidor de símbolos] de personalidades consagradas pela reverência casa-branquense”, mas baseado nos estudos feitos e publicados por Lafayette de Toledo, Amélia Franzolin Trevisan, Sérgio A. Scacabarrozzi e José Antonio Lages, entre outros, podemos afirmar que José Nazaré de Azevedo não é o fundador de Casa Branca, já que a História não se baseia no imaginário popular, e sim em documentos autênticos e fieis. É óbvio que lendas urbanas, relatos orais ou escritos romanceados ou poéticos podem ajudar na confirmação de um fato, mas o mesmo só é autenticado pela documentação existente.
No ano de 1913 o historiador, maestro e jornalista Justino Gomes de Castro relata ter ouvido do escravo José Machado, que viveu 135 anos, ser José Nazaré de Azevedo, natural de Jacuí, proprietário, desde o final do século dezoito, de quatro ranchos e uma casa localizados na junção dos córregos Espraiado e Frutuoso.
No entanto, nem Lafayette de Toledo em seus trabalhos publicados entre 1889 a 1904, nem Amélia Franzolin Trevisan na tese “Casa Branca, a Povoação dos Ilhéus” citam o nome de José Nazaré de Azevedo devido a uma razão bem simples: nos documentos por eles consultados no Arquivo Nacional, Arquivo do Estado de São Paulo e Arquivo da Cúria Metropolitana de São Paulo não existe nenhum registro sobre ele.
Num caderno especial, do ano de 2001, no jornal “Folha de Casa Branca”, comemorativo aos 187 anos de nossa cidade, Sérgio A. Scacabarrozzi em excelente artigo reproduz a petição enviada em 1810 pelos moradores da região, ao Bispo de São Paulo, solicitando a criação da Freguesia, e na mesma também não consta o nome de Nazaré.
José Nazaré de Azevedo, nascido em 1780 em Mogi Guaçu, e falecido em 1829, é mencionado como personagem de destaque na fundação de Ribeirão Preto pelo historiador José Antonio Lages. Em 1820 procedente de Batatais chegou a Casa Branca um entrante de mesmo nome, não havendo comprovação de que fosse a mesma pessoa.
Na opinião do Doutor Augusto Ribeiro de Loyola na obra “Efemérides Locais” publicada em 1875, ou seja, sessenta anos após a criação da freguesia, Casa Branca foi fundada pelos Irmãos Lara, residentes na Estiva, e pelo Padre Francisco de Godoy Coelho, residente no Cocais, afirmação esta confirmada também nos estudos de Lafayette de Toledo.
Na Estiva existiam três casas pertencentes a José, Vicente e Francisco de Lara e a localidade foi mencionada em vários relatos de viajantes do século dezenove, deduzindo-se daí que fosse um lugar de expressão. Até o inicio da década de 1960 existia na Estiva [localizada entre Casa Branca e Tambaú] uma capela, antiga e ampla, onde se realizavam missas e quermesses.
O padre Francisco de Godoy Coelho nasceu em São Paulo no ano de 1748, filho de Antonio Coelho Barradas e Maria Godoy Cardoso.
Foi vigário de Itapetininga, tendo chegado a Casa Branca entre 1808 e 1810, e com o não atendimento das pretensões em criar a freguesia nas suas terras, surgiram lendas envolvendo a pessoa do sacerdote e os habitantes de Casa Branca.
Uma delas conta que os habitantes de Casa Branca trouxeram do Cocais a imagem de Santana e a colocavam na pequena capela, de pau a pique e coberta de sapé, construída no Largo do Rosário, só que no dia seguinte a imagem reaparecia na sua antiga igreja.
O Padre Godoy aproveitava e dizia: “a imagem fugira porque não queria morar na Casa Branca”. As idas e vindas da santa continuaram até que os casa-branquenses ficaram de tocaia durante a madrugada e surpreenderam o escravo do padre retirando a imagem da capela e acabaram com a farsa.
A segunda narra que o padre Godoy teria retornado para Itapetininga e abandonado sua fazenda no Cocais. No entanto antes de ir embora, bravo com os casa-branquenses, teria rogado a praga de que “a povoação iria ser engolia pelos buracos” numa alusão às boçorocas que já existiam na época.
Na verdade o Padre Francisco de Godoy Coelho continuou morando em suas terras no Cocais, sendo nomeado vigário de Casa Branca em 12 de dezembro de 1814.
Posteriormente a esta data existem vários documentos comprovando que o sacerdote esteve à frente dos assuntos religiosos e civis da Freguesia de Nossa Senhora das Dores de Casa Branca.
Em 1826 o Padre Godoy reclamou ao Barão de Congonhas, presidente da Província de São Paulo: “esta Freguesia Nova, que nem ainda tem a devida Matriz, sim hua pequena capela- erecta por ordem da Polícia, para os Ilhéus, e Colonos receberem nella os benefícios dos Sacramentos”, cujo original reproduzimos:

Nunca foi embora de Casa Branca e aqui morreu em 1835, conforme registro no livro de óbitos da Paróquia Nossa Senhora das Dores:
“Aos quatro dias do mês de outubro de mil oitocentos e trinta e cinco, sepultou-se nesta Matriz do Rosário, acima do arco, o Reverendo Vigário Francisco de Godoy Coelho, com a idade de 87 anos, com testamento. Recebeu todos os sacramentos, faleceu de hidropisia, envolto em hábito de São Pedro. Recomendado solenemente, do que para constar mandei fazer este assento, em que me assino. O Vigário. Manuel Rosa de Carvalho Pinto”.
Com as três reconstruções da Igreja do Rosário, desapareceu o túmulo do Padre Godoy, primeiro pároco, e um dos fundadores de Casa Branca.
Em 25 de fevereiro de 1841, através da Lei Provincial 15, foi criada a Vila de Casa Branca abrangendo a freguesia de Caconde e o Curato de São Simão, todos pertencentes ao município de Mogi Mirim.
Em 27 de abril de 1872 pela lei Provincial 22, Casa Branca foi elevada a condição de cidade (município), e em 6 de abril do mesmo ano a Lei Provincial 46 cria a Comarca.
Portanto Casa Branca completa 212 anos neste dia 25 de outubro de 2026
Bibliografia:
Casa Branca, A povoação dos Ilhéus - Amélia Franzolin Trevisan.
Dicionário Topográphico da Comarca de Casa Branca- Lafayette de Toledo
Uma Vez Casa Branca- Ganymédes José
Registros da História de Casa Branca – Ernane Cambiaghi
Jornal “Casa Branca” – Justino Gomes de Castro
Imagens: Quartel da Casa Branca- 1846, aquarela de Miguel Dutra, fotografada por Hélio Nobre,
Acervo do Museu Paulista da Universidade de São Paulo.
Mapa da Capitania de São Paulo – 1773, Alvará da criação da Freguesia-1814, Detalhe da carta ao Barão de Congonhas, datada de 02 de março de 1826, com assinatura do Padre Francisco de Godoy Coelho
Acervo do Arquivo Publico do Estado de São Paulo
As imagens e documentos são para o artigo do *Diário de Casa Branca**, ficando proibida a sua reprodução.



