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Coisa Pública

A lista que ninguém consegue fazer

As listas de boicote ao comércio dizem saber como cada um votou. As urnas de Casa Branca mostram por que isso é palpite, e quem precisa responder por ele.

Lucas Santos
Lucas Santos · Jornalista e estudante de Ciência Política
· 5 min de leitura
Mão de eleitor aperta a tecla Confirma de uma urna eletrônica brasileira

Urna eletrônica usada nas eleições brasileiras. Foto: Tribunal Superior Eleitoral

No dia 25 de outubro, 9.424 eleitores de Casa Branca votaram em Flávio Bolsonaro e 5.061 votaram em Lula. Esses números são públicos e estão no site do Tribunal Superior Eleitoral. Os nomes por trás deles não estão em lugar nenhum, e a democracia foi desenhada para que seja assim.

Mesmo assim, poucos dias depois, listas com nomes de comerciantes da cidade circulavam em grupos de WhatsApp e nas redes sociais, atribuindo a cada um uma preferência política e sugerindo boicote.

Quem monta uma lista dessas afirma saber o que a urna existe para esconder. O voto é secreto por determinação da Constituição. O que sobra para o autor da lista é palpite: uma postagem antiga, uma conversa de balcão, o que alguém ouviu dizer. A Frente Jovem CB lembrou que há nessas listas gente que nunca se manifestou politicamente em público.

O que as urnas mostram

Os boletins das 66 seções eleitorais da cidade ajudam a medir o tamanho do engano. Flávio venceu em todas. Ainda assim, nenhuma delas ficou sem eleitor de Lula: o menor resultado dele foi de 42 votos. Na seção mais favorável a Flávio, quase um em cada quatro votos válidos foi para Lula. Na mais favorável a Lula, ele chegou a 47,8%.

Em outras palavras, os dois lados entram na mesma fila, na mesma escola, e voltam para a mesma rua.

Há também um grupo que nenhuma lista enxerga. Os 65% de Flávio na cidade são dos votos válidos. Contados os 19.555 eleitores, ele teve 48% e Lula, 26%. Outros 5.070 moradores faltaram ou votaram em branco ou nulo: são nove pessoas a mais do que o total de eleitores de Lula. Uma lista de dois lados não tem onde colocar um em cada quatro eleitores de Casa Branca.

A conta do balcão

Agora leve isso para o caixa. Numa conta grosseira, a loja que só atendesse quem vota igual ao dono abriria mão de um em cada três fregueses, ou de dois em cada três. Nenhum comerciante de cidade pequena tem esse luxo, e o boicote também não acerta só o dono. Acerta a funcionária, que pode ter votado diferente do patrão, e o fornecedor, que nem foi consultado.

Cada um compra onde quiser. Isso é liberdade, e não é invenção de um lado só. Thiago Damaceno, presidente do PL em Casa Branca, tem razão ao lembrar que Fernando Haddad, então ministro da Fazenda, disse em 2023, ao falar de empresas engajadas com o governo anterior, que não comprava “nem um palito de fósforo” de quem não tivesse “compromissos com essas questões”. Foi uma frase ruim na época e continua ruim agora, porque autoriza o que hoje seu próprio partido pede para investigar.

Só que deixar de comprar é uma decisão sobre a minha vida. Publicar o nome de um vizinho ao lado de um voto que eu presumo é uma ação contra a vida dele. A OAB já alertou para possíveis consequências legais.

Quem tem mandato responde diferente

A parte mais grave não veio de grupo anônimo. Publicações que o Diário de Casa Branca identificou como do vereador Marcio Sabaini (PL) orientam: “Não faça doações para pobres”. Recomendam deixar de frequentar igrejas com padres e pastores “esquerdistas” e pedem ao leitor que “parta para cima de todo palhaço doutrinador comunista fantasiado de professor”.

Um vereador tem direito às suas posições, inclusive às mais duras. Mas ele representa a cidade inteira, e seu salário sai também do imposto daqueles 5.061. Mandar eleitor “partir para cima” de professor e cortar doação a quem é pobre não cabe nesse cargo.

A presidente da Câmara, Fabiana Sandoval (PT), também precisa dar um passo além. Ela disse em vídeo que “as medidas cabíveis estão sendo tomadas” e que os colegas, “no mínimo, vão ter que pedir desculpa”. Não disse quais medidas. Ela preside a Câmara e o PT da cidade ao mesmo tempo, e por isso mesmo o assunto precisa sair do vídeo e ir para o papel.

O caminho está escrito no Decreto-Lei 201, de 1967: denúncia, comissão processante e votação em plenário. Se a denunciante for a própria presidente, ela passa o comando ao substituto legal durante o processo. Para cassar um mandato são necessários dois terços da Câmara, o que aqui significa 8 dos 11 vereadores. Pode ser que os votos não existam. Mas o morador tem o direito de saber se há denúncia, de quem e contra quem.

O que dá para cobrar

Houve boas notícias nesses dias. A ACE, a OAB, a Frente Jovem CB, o prefeito Duzão Nogueira e o professor Du Saran falaram contra as listas. O presidente do PL, partido que venceu com folga na cidade, também disse que sua luta não é “contra o sustento das famílias”. Vindo de quem ganhou aqui, esse recado pesa mais.

O resto depende de nós. Quem recebeu uma lista pode parar de repassar. Quem foi atingido pode procurar um advogado e a polícia. E a Câmara deve dizer em público, até a próxima sessão, o que pretende fazer.

Esta é a estreia de Coisa Pública, um espaço para discutir quem decide em Casa Branca e quem paga a conta. Sou jornalista, estudo Ciência Política e fundei este jornal. O que escrevo aqui é opinião assinada, separada das reportagens da redação, e quando eu tiver algum interesse em um assunto, você vai saber.

Em quem votei, não vou contar. Esse direito é meu, e é seu também.

Os artigos de opinião são de responsabilidade de seus autores e não representam, necessariamente, a posição do Diário de Casa Branca.