Centenas de romeiros saíram de Tambaú rumo a Casa Branca no último domingo, 2 de agosto, na Caminhada da Fé no Caminho do Milagre. A peregrinação de cerca de 28 quilômetros abriu oficialmente o centenário da Festa de Nossa Senhora do Desterro, a maior tradição religiosa da cidade, que chega à sua 100ª edição em 2026. A programação segue por todos os fins de semana de agosto, até o dia 30, no bairro do Desterro.
A Caminhada é realizada pela Igreja Católica e integra o calendário do turismo religioso local. Os ônibus levaram os participantes inscritos e credenciados do Santuário do Desterro até Tambaú na madrugada de domingo, com saída às 4h30. De Tambaú, o grupo fez o trajeto a pé de volta a Casa Branca. A pulseira funcionou como credencial obrigatória. Sem ela, não havia embarque.
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O trecho entre Tambaú e Casa Branca é o mesmo que abre o Caminho da Fé, a rota de peregrinação que liga a região ao Santuário Nacional de Aparecida. Quem faz o percurso completo enfrenta cerca de 500 quilômetros até a Basílica. O primeiro dia, de Tambaú a Casa Branca, passa por plantações de cana, café, batata e eucalipto, sempre pela terra vermelha da região. As setas amarelas marcam o caminho.
Por que a saída é em Tambaú
Tambaú foi a cidade onde viveu o Padre Donizetti Tavares de Lima, morto em 1961. A partir da década de 1950, o sacerdote ficou conhecido em todo o país pelos relatos de curas e bênçãos. A fama transformou a cidade em ponto de partida da peregrinação até Aparecida. Por isso a Caminhada da Fé sai de lá e leva “Caminho do Milagre” no nome. Padre Donizetti foi beatificado pela Igreja Católica em 2019.
Há uma coincidência que dá sentido ao percurso. O Padre Donizetti era mineiro e migrou para o interior paulista. A santa que espera os romeiros em Casa Branca é, ela mesma, a padroeira dos que deixam sua terra.
O que significa “Desterro”
O nome da festa carrega a chave para entender sua importância. Nossa Senhora do Desterro é um título dado à Virgem Maria que representa a fuga da Sagrada Família para o Egito, quando Maria e José escaparam com o Menino Jesus da perseguição de Herodes. Desterro significa exílio, banimento, ficar sem a terra natal. Por isso a devoção também é chamada de Nossa Senhora da Fuga.
Isso muda a leitura da celebração. Não é uma festa genérica. Nossa Senhora do Desterro é a padroeira dos que tiveram de deixar a pátria para procurar trabalho longe ou se refugiar em outras terras. É a santa dos migrantes, dos que recomeçam a vida em terra estranha.
Um detalhe conecta a devoção diretamente à formação de Casa Branca. Na Itália, essa mesma santa é chamada de Madonna degli Emigrati, a Mãe dos imigrantes. Numa cidade com forte presença de descendentes de italianos, onde o santuário fica na Rua dos Pellegrini, palavra que significa peregrinos em italiano, o sentido não é acidental.
Cem anos de festa, um século e meio de fé
A capela é bem mais antiga que a festa pública, e vale separar as duas datas. A origem remonta ao Coronel João Gonçalves dos Santos, que ergueu uma capela no Alto da Boa Vista, dentro da antiga Fazenda Casa Branca, como pagamento de uma promessa. A tradição registra a construção em meados do século 19, e a imagem que repousa no altar veio de Portugal. Com o tempo, o número de devotos cresceu, e em 27 de abril de 1890 o Cônego Miguel Martins da Silva celebrou ali a primeira missa.
Por décadas, porém, a festa foi assunto de família. As celebrações em louvor a Nossa Senhora aconteciam na capela particular do coronel, restritas aos parentes e convidados. O ponto de virada veio em 1926. O Coronel João Gonçalves faleceu em 17 de setembro daquele ano e foi sepultado na própria capela. No mesmo período, a capela e as terras ao redor passaram das mãos da família para a Diocese de Ribeirão Preto. A partir da doação, as quermesses se abriram a toda a população. Desde 1926, sem interrupção, a Festa do Desterro acontece todos os anos.
É esse marco que a cidade celebra em 2026. Cem anos não da devoção, que é mais antiga, mas da festa como patrimônio de todos, aberta ao povo. A igreja atual foi erguida depois, em 1936, e por muitos anos ficou sob a administração dos religiosos estigmatinos, tornando-se ponto de peregrinação para fiéis de todo o estado, principalmente em agosto.
Por que o centenário importa para a cidade
Três razões dão peso à data.
A primeira é a continuidade. Cem anos sem interrupção é raro. A festa atravessou a Era Vargas, a Segunda Guerra, a ditadura, planos econômicos e a pandemia. A quermesse é descrita há gerações como a maior de Casa Branca, com pastéis, quibes, frango à passarinho, rifas e música servidos dentro do próprio santuário.
A segunda é o alcance. O santuário de Casa Branca é hoje o maior centro de peregrinação dos devotos de Nossa Senhora do Desterro no Brasil, pelo número de graças atribuídas à sua intercessão. A cidade não tem apenas uma festa local. Abriga o principal ponto nacional dessa devoção, no mesmo campo simbólico de Florianópolis, que por mais de dois séculos se chamou Vila do Desterro em homenagem à mesma santa.
A terceira é a tradição viva dentro da festa, com destaque para a Romaria de Cavaleiros. Ela não é encenação de folclore. Devotos saem a cavalo do Santuário do Desterro, passam pela Igreja Matriz Nossa Senhora das Dores e seguem com a tropa. Em edições anteriores, a romaria reuniu comitivas de municípios vizinhos e carros de boi vindos de Minas Gerais, com um casal encenando a fuga da Sagrada Família à frente do cortejo.
O bairro do Desterro
O santuário fica afastado do centro, mas o acesso é fácil e há estacionamento. No local também estão os restos mortais do Irmão Roberto Giovanni, figura de devoção entre os casa-branquenses e em processo de reconhecimento pela Igreja. Toda a movimentação da festa acontece na Rua dos Pellegrini, 11-B.
A programação que ainda vai acontecer
A festa deste ano é longa. A parte religiosa e a parte cultural dividem os fins de semana de agosto, com praça de alimentação, atrações musicais e recreação a partir das 19h.
No sábado, dia 9, às 18h, há missa em homenagem aos pais, seguida da apresentação do Balé Gaby Dance. No dia 16, às 11h, acontece a Romaria de Cavaleiros. No domingo, 23, o Encontro de Carros Antigos abre às 8h, com show de prêmios às 13h.
As sextas-feiras têm shows. No dia 14 se apresenta a dupla Angelo & Daniel. No dia 21 acontece o Baile Premium, com o professor Alexandre Cardoso. No dia 28 é a vez do Trio Raiz. No dia 22, um sábado, sobem ao palco os padres cantores, às 21h.
A Novena acontece entre os dias 21 e 29, às 19h30 nos dias de semana, às 19h no sábado e às 18h no domingo. As missas seguem aos sábados, sempre às 19h, e aos domingos às 8h, 10h e 18h.
O encerramento, dia 30
O último dia concentra os momentos mais fortes. A programação começa às 8h, com missa e bênção aos romeiros. Às 10h, há nova missa, com bênção aos romeiros e aos moto clubes. Ao meio-dia, a Oração do Ângelus abre a Carreata e a Motociata, que conduzem a imagem de Nossa Senhora do Desterro até o Carro Andor. Às 14h, o terço é rezado com as Irmãs Franciscanas.
O ponto alto vem às 16h. Dom Eugênio B. Martins preside a Missa Solene na Igreja Nossa Senhora das Dores, seguida de procissão até o Santuário do Desterro. À noite, às 22h, acontece o sorteio de uma moto elétrica, que fecha a festa.
A festa da migração numa cidade de migrantes
O centenário revela uma coerência que atravessa toda a história local. O Padre Donizetti, cuja fama leva a Caminhada a sair de Tambaú, foi um mineiro que migrou para o interior paulista. Os italianos que deram nome à Rua dos Pellegrini vieram do outro lado do mundo. A imagem no altar cruzou o Atlântico desde Portugal. E a santa homenageada é, ela mesma, uma refugiada.
Num momento em que a imigração volta ao centro do debate mundial, uma festa de cem anos dedicada à padroeira dos que deixam sua terra ganha um sentido que vai além do calendário religioso. Neste ano do centenário, a Caminhada da Fé foi a largada. O restante de agosto pertence ao Desterro.
